Mudar a alimentação ou a pessoa que se alimenta?
jan 2nd, 2012 by Ricardo Borges
Folheando uma revista, dessas que apresentam fórmulas milagrosas para “perder 5k em 3 dias”, me veio uma questão: o que essas dietas estão propondo? Li no mínimo 5 ou seis “fórmulas” de dietas estranhas e, pelo menos para mim, assustadoras, que incluiam desde de tomar apenas líquidos até tomar um copo de chá antes de cada refeição (e sempre refeições que não tinham muito mais que uma centena de calorias). Propostas que nenhum humano normal conseguiria realmente conduzir por mais de alguns dias. Antes de partir para o que realmente interessa neste tópico, gostaria de registrar que as receitas mirabolantes eram um misto de dietas absurdamente hipocalóricas somadas a estratégias diuréticas, o que provavelmente faria mesmo uma diferença na balança, ainda que não fosse perdendo gordura, como propunham, mas perdendo líquido, o que com ingestão normal de líquido faria o peso voltar em menos de um dia. Mas enfim…
A leitura, apesar de assustadora, me fez pensar em dois tipos de mudança. As dietas, ainda que sérias, merecedoras de respeito, propõe uma MUDANÇA NA ALIMENTAÇÃO. A pessoa continua sendo a mesma, vivendo exatamente como sempre viveu, enfrentando o seu dia-a-dia como sempre fez, pensando como sempre pensou, mas por um prazo determinado de tempo o alimento colocado à sua frente é diferente. Essa mudança, após a perda de peso, volta a ser como antes. A pessoa não precisa voltar a ser como antes porque nada nela mudou.

O que alguns programas propõem, e sou adepto deste tipo de mudança, é que haja uma MUDANÇA NA PESSOA. Quando a pessoa muda sua maneira de pensar, de se comportar, de agir em certas situações, de perceber, de lidar com seus problemas, de lidar com sua alimentação, ocorre nela uma mudança que se mantém mesmo depois que ela alcança o peso desejado. Buscar uma mudança na pessoa aumenta muito a probabilidade de conquistas à longo prazo.
Não devemos ser inocentes a ponto de acreditar que existem coisas em que só encontramos vantagens e outras nas quais só há desvantagens. Claro que existem prós e contras em ambas mudanças. Mudar apenas a alimentação tem a vantagem de ser muito mais fácil, rápido, não implica nenhum tipo de reflexão, nem enfrentamento de nada que seja difícil de lidar. São vantagens à curto prazo. Claro que com o passar do tempo, nada do que se conquista assim, se manterá, e este é o maior dos prejuízos, afinal, quem está com sobrepeso ou obesidade não tem o sonho de ter um peso saudável por duas ou três semanas. Ela se ilude, quando adere a esses tipo de dietas, buscando resultados rápidos e relativamente fáceis, esperando que os efeitos se mantenham por muito tempo. Programas que lidam com a mudança na pessoa têm a “desvantagem” de ser muito mais trabalhoso. Hábitos, maneiras de pensar, de lidar consigo e com as coisas ao seu redor foram construções que levaram anos, às vezes décadas para serem forjadas até estarem enraizadas como estão hoje. Achar que elas podem mudar em poucos dias e de maneira fácil é subestimar a complexidade que é o ser humano. Porém, essa mudança é possível, com muito esforço e com o auxílio de um profissional. E suas mudanças são permanentes, que transformam a pessoa em alguém que passa a agir diferente, pensar em maneiras diferentes de agir diante de velhos problemas, de encontrar soluções novas, de lidar de maneira mais adequada diante de seus sentimentos, conflitos, dificuldades, uma pessoa com habilidades novas e funcionais. Neste sentido, a mudança na alimentação será só um reflexo de uma mudança que ocorreu em um nível muito mais profundo e que permanecerá mesmo com o passar do tempo.
Ricardo Borges é psicólogo comportamental clínico e pesquisador na área da obesidade. Ver perfil.
















Recentemente, recebi, de uma visitante do blog, um e-mail contanto sua trajetória por tantas dietas e tentativas de perder peso que a fizeram se sentir frustrada consigo mesma e desanimada em relação à tentativas futuras. Uma coisa que me chamou a atenção em sua história foi como o problema que ela relatou parece tanto com o de tantas outras pessoas que já chegaram a mim falando sobre sua dificuldade com dietas. “Eu sei que funciona para perder peso e fico um bom tempo sem comer meu chocolate e minha pizza. Mas logo depois que perco o peso que queria perder, parece que como muito mais chocolate e pizza que antes”.